sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Mudança.



O amadurecimento para uma nova possibilidade traz ansiedade e medo, elementos fundamentais para a concretização do possível. O pânico é o resultado da negação da possibilidade.  A mudança anuncia o abandono do conhecido para a exploração do novo, do desconhecido, do misterioso. É o anúncio de uma nova maneira de ser, no sentido em que efetivamente anuncia um risco real que é de eu abandonar a familiaridade em relação a quem eu já sou. É aí que o medo – ou pânico – tem seu papel. 

O medo do desconhecido é medo da transformação, o medo de assumir que o mundo é muito mais do que aquilo que preferimos reduzi-lo. O enigma da existência é infinito e, para desfrutarmos disso, basta nos abrirmos a ele.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Sobre a Cura Gay.

Argumenta-se que a proposta apelidada de "Cura-Gay" combata a resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que proíbe o psicólogo de tratar um paciente que pretende se livrar da homossexualidade, pois a mesma estaria restringindo o livre exercício da profissão, ou seja, um psicólogo deve ser livre dentro da sua área de atuação para tratar o que bem entender.

Pensando dessa forma, fica difícil acreditar que o deputado João Campos, autor da proposta, tenha algum conhecimento sobre o funcionamento da clínica de psicologia. Quando um cliente/paciente (como preferirem), procura ajuda do profissional, ele apresenta uma queixa. A queixa inicial é o problema, o que incomoda. Insatisfação no trabalho, tristeza sem maiores explicações, tédio, enfim. Porém, a queixa inicial em pouquíssimos casos se revela como a real demanda por análise (sei do risco que corro ao usar esse termo, mas o assumo). Isso porque o trabalho de um psicólogo pode ser resumido, de forma bem superficial , como a busca pela verdade. A verdade que se esconde além da queixa, por trás dela.

Dito isso, pensamos no sujeito que procura se livrar de sua orientação sexual, hostilizada pelo meio, e adotar uma bem-vista pelo meio. Nessa única frase já podemos ver o equívoco da proposta. O incômodo por sua orientação sexual parte de um incômodo em aceitar-se perante os olhos do outro, algo fundamentalmente necessário para nossa aceitação de si. Não há sequer um registro de heterossexuais incomodados com sua condição e procurando ajuda, novamente porque o fator sócio-histórico, a nossa cultura, não condena a heterossexualidade. Como disse anteriormente, um psicólogo busca a verdade e a verdade sempre dói. A verdade sempre machuca. Mas somente a verdade liberta.

Por isso, a resolução de 1999 do CFP regulamenta a prática, não a restringe. O desafio e a beleza da clínica de psicologia é a necessidade de suspender todo seu julgamento e crenças, se colocar a disposição da aceitação incondicional, oras. Ao propor cura a homossexualidade, um psicólogo estaria propondo uma repressão ao sofrimento e a clínica não se interessa em reprimir o sofrimento, muito menos reprimir o ser humano por trás de qualquer sexo, cor ou credo.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sobre a Fenomenologia


"É Preciso Voltar às Coisas Mesmas"

Isto é, voltar-se para a importância da realidade individual das coisas, evitar a contaminação das coisas pelo sujeito, pois assim estaríamos reduzindo-as a nossa própria realidade, negando a delas próprias. Desta forma, o sujeito projetaria nas coisas a sua realidade, sem conseguir analisar a realidade objetiva delas. Na fenomenologia, é preciso abandonar essa forma de pensamento parasita. O retorno às coisas mesmas propõe uma relação autêntica, verdadeira com o mundo.

De acordo com Husserl, é preciso superar o impasse da discussão sobre a primazia do sujeito em relação ao objeto na produção do conhecimento, isso não se trata de uma competição entre consciência e coisas ou sujeito e objetos. O conhecimento é algo que estrutura-se por via do sujeito, sendo construído de forma relativa ao sujeito. Essa é a realidade – ou fenômeno - da fenomenologia. Não como ela poderia ser em si mesma, pois não há como saber isso, mas como ela aparece a nós, como ela aparece ao sujeito do conhecimento. O fenômeno é o principal mecanismo de conhecimento.
Para entendermos como funciona a produção de conhecimento na fenomenologia, é preciso compreender a consciência como um movimento de estar consciente de algo. A consciência nem mesmo existe fora da relação que se apresenta como consciência de alguma coisa. Ela é um olhar perante algum objeto e não uma realidade ou um fato. Apenas isso, nada mais. É incalculável a compreensão desta concepção de consciência, pois só assim conseguimos olhar para as coisas sem parasitá-las com nosso sujeito, nossos hábitos ou crenças. Nós não apreendemos ou assimilamos o conhecimento das coisas, mas tomamos consciência dele, o percebemos, fazemos o movimento de visá-las.
O mundo não anula o sujeito procurando o definir de acordo com a sua realidade, assim como o contrário não deve ocorrer. Por isso, é preciso entender que, falando a partir de um discurso fenomenológico, a apreensão tem outro sentido, este de manter a separação entre consciência como movimento e as coisas, que, para se tornarem objeto deste ato de consciência, precisam continuar com sua realidade e autonomia. Daí, Husserl diz que este modo que a consciência visa as coisas é a intencionalidade do ato de tornar-se consciente perante a um objeto. Isso é o que temos como realidade, de nos virarmos a um fenômeno intencionalmente. Desta forma, quando dizemos que estamos conscientes de um objeto, devemos entender que estamos conscientes de algo na medida em que ele existe fora de mim.

A fenomenologia tem a intenção de manter as funcionalidades dos dois interlocutores de realidade – sujeito e objeto – mantendo a concepção funcional da consciência como fora apresentado. Pode-se compreendê-la como um processo de conhecimento concreto e filosófico – fundamentalmente ligado à vivência – e capaz de universalidade, através do particular. Assim, mudando a maneira com que era compreendida a noção de interioridade e exterioridade, podemos dizer que a fenomenologia funda a filosofia contemporânea."

terça-feira, 23 de abril de 2013

Existência Paradoxal




"É através do questionamento da existência que nos saímos bem sucedidos de uma análise sobre a realidade humana. E é precisamente esse questionamento, que gera a angústia existencial inerente à vida. O homem procura negar a sua realidade finita, desviar sua atenção do fardo existencial, com a esperança de viver um pós-vida hipotético. A natureza dos conflitos psíquicos se dá por uma maneira equivocada de lidar com a angústia. Acabamos por negá-la e, assim, negando nosso potencial - pois é existindo na angústia que podemos nos perguntar por nós mesmos de forma mais autêntica e retomarmos nosso potencial.

Aquele que realmente não se sentir perdido não tem perdão; quer dizer, nunca se encontrará, nunca enfrentará a sua realidade. (ORTEGA apud BECKER, 2010, p.117).

A existência humana é essencialmente paradoxal. O paradoxo existencial é de que precisamos de um tipo de ‘renascimento psicológico’, que nos faça entender quão terrível e angustiante é a nossa existência para podermos nos perceber de forma realmente autêntica, mas ao mesmo tempo, essa percepção torna-se um fardo – o fardo de existir -. Por mais que o ser humano viva em uma crescente, rumo a um ‘viver’ pleno, cada vez mais se aproxima do seu trágico e inevitável fim, a morte.
Kierkegaard afirma que a angústia é a experiência fundamental do homem. O ser que existe no mundo, vive primeiramente sujeito às suas escolhas. Um ser condenado à liberdade, sem quaisquer garantias de qualquer natureza – muitas vezes buscando-as inutilmente em ideias fantasiosas apoiadas por discursos religiosos, políticos etc. Cada escolha pode levá-lo ao sucesso ou ao fracasso, ao bem ou ao mal à realização ou à frustração."

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Peculiaridade do Sentido.

"O sentido é um elemento fundamental para vivermos. Mas, diferente de outros elementos igualmente necessários para a vida – como respirar, se alimentar, se movimentar – o sentido é um elemento fundamental para a gente poder morrer. Porque, pelo sentido, a morte deixa de ser um acontecimento que cai sobre mim. A morte passa a poder ser empunhada. Em nome do sentido, o ser humano conquista esta condição, que é uma aberração do ponto de vista biológico, que é a de se matar por alguma coisa. O suicida se mata porque a vida não tem sentido nenhum. O herói é um homem que se mata porque a vida tem tanto sentido que a própria preservação da vida passa a ficar em segundo lugar frente a significatividade do sentido. O sentido que a gente precisa pra viver é, também, o sentido que nos liberta pra morrer."

Trecho retirado da fala do psicólogo e professor João Augusto Pompéia em palestra proferida na Universidade FUMEC em 2012.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Ao avô.

"Le soleil ni la mort ne se peuvent regarder en face." (Nem o sol nem a morte podem ser encarados fixamente.) - François de La Rochefoucauld, máxima 25.

Assim encaramos a nossa existência em direção ao fim. Sabemos desse fim invevitável, mas evitamos vislumbrá-lo por qualquer tempo que seja, pois a finitude, o tempo corrido na terra, assusta, assombra, deprime. Se dar conta que estamos sempre indo em direção a um único fim certo - a morte - não é uma conclusão para qualquer um. O desespero frente a tal idéia pode ser suficiente para enlouquecer.

Qualquer contato mais próximo com a morte nos coloca de frente da nossa propria finitude, nos coloca de frente para o sol.

Epicuro nos ensina que através da propagação, isto é, das lembranças de experiências prazerosas, marcantes, profundas e como as contamos repetidas vezes entre nós, podemos aprender a não ter necessidade de buscas intermináveis e hedonísticas para o alívio do medo da morte.

Com a morte de meu avô, não foi diferente. Colocado diante da morte, mais uma vez, de uma pessoa próxima, além da tristeza inevitável, não pude evitar de sentir uma admiração e, porque não, conforto. Estes, derivados das lembranças, das experiências vividas ao seu lado e relatadas por todos.

Henry Scott Edwards Dobbin, se manteve são durante 97 anos de vida através do conhecimento. Um sábio, um intelectual distinto da maioria. Dono de palavras e bengala pesadas, que nem sempre tecia opiniões agradáveis, mas sempre verdadeiras. Um homem que não se omitia, não fugia. Firme, rígido nas opiniões e argumentações. Advogado, professor, leitor, pintor. Amou filhos, netos e bisnetos. E foi amado de volta.

Todo e qualquer texto escrito em sua homenagem será insuficiente. O que ele significou na vida de todos que o cercaram certamente vai além da língua escrita ou falada. Para relatar todos os acontecimentos extraordinários que constituíram sua não menos extraordinária existência, seria necessário um espaço muito maior.

Mas, sinto-me na obrigação de tentar.


1915 - 2012

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

tempo

tempo

"Um pouco antes seria dia, um pouco depois seria o entardecer, e se escolhesse o momento não seria a hora. Então pensou em deixar para depois, mas percebeu que isso acabaria sendo nunca. Achou que poderia talvez ser imediatamente não é quase agora?

Assim, ele se perguntou se algo poderia ser de tal forma que não coubesse em tempo algum. Existiria algo que somente pudesse se pronunciar e ser se não fosse colocado em qualquer parte do tempo? Tipo essas coisas que falam como a eternidade, o infinito, a dízima periódica; parecem coisas que passam pelo tempo, mas que não estão nele.

Vivia um dilema. Achava que suas questões não podiam ser colocadas na ordem usual do tempo, não tinham como ser definidas a partir de ontem, hoje, amanhã, pois issio modificaria radicalmente tudo e ele ficaria apenas com outro problema, não mais o problema original.

O problema original não cabia em qualquer modalidade do tempo, não tinha como se relacionar como ponteiros, relógios, prazos.

Quando disseram a ele que estava para enlouquecer com essa bobagem toda, que no fundo estava apenas fugindo de alguma coisa que o ameaçava, usou um exemplo. Ele disse que quando amava, quando em sua vida estava apaixonado por alguém, isso se tornava incompatível com os horários, os relógios todos, os períodos e com qualquer coisa que lembrasse prazos. Disse que, para ele, o amor espalhava, encurtava, quebrava e juntava o tempo de tal forma que nem tempo o tempo mais era.

Houve então um outono no qual ele desapareceu. Polícia, os amigos, o imposto de renda, todos o procuraram, porém ele não era mais achado em parte alguma. isso porque ao amanhecer, com a névoa fresquinha da noite e algumas estrelas no céu, ele havia se descomposto em nuvens, em brisas, em outono. Se misturou aos montes que contornam as estradas, para todas as partes, mais ou menos como se diz do que se torna pra sempre."