Argumenta-se que a proposta apelidada de "Cura-Gay" combata a resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que proíbe o psicólogo de tratar um paciente que pretende se livrar da homossexualidade, pois a mesma estaria restringindo o livre exercício da profissão, ou seja, um psicólogo deve ser livre dentro da sua área de atuação para tratar o que bem entender.
Pensando dessa forma, fica difícil acreditar que o deputado João Campos, autor da proposta, tenha algum conhecimento sobre o funcionamento da clínica de psicologia. Quando um cliente/paciente (como preferirem), procura ajuda do profissional, ele apresenta uma queixa. A queixa inicial é o problema, o que incomoda. Insatisfação no trabalho, tristeza sem maiores explicações, tédio, enfim. Porém, a queixa inicial em pouquíssimos casos se revela como a real demanda por análise (sei do risco que corro ao usar esse termo, mas o assumo). Isso porque o trabalho de um psicólogo pode ser resumido, de forma bem superficial , como a busca pela verdade. A verdade que se esconde além da queixa, por trás dela.
Dito isso, pensamos no sujeito que procura se livrar de sua orientação sexual, hostilizada pelo meio, e adotar uma bem-vista pelo meio. Nessa única frase já podemos ver o equívoco da proposta. O incômodo por sua orientação sexual parte de um incômodo em aceitar-se perante os olhos do outro, algo fundamentalmente necessário para nossa aceitação de si. Não há sequer um registro de heterossexuais incomodados com sua condição e procurando ajuda, novamente porque o fator sócio-histórico, a nossa cultura, não condena a heterossexualidade. Como disse anteriormente, um psicólogo busca a verdade e a verdade sempre dói. A verdade sempre machuca. Mas somente a verdade liberta.
Por isso, a resolução de 1999 do CFP regulamenta a prática, não a restringe. O desafio e a beleza da clínica de psicologia é a necessidade de suspender todo seu julgamento e crenças, se colocar a disposição da aceitação incondicional, oras. Ao propor cura a homossexualidade, um psicólogo estaria propondo uma repressão ao sofrimento e a clínica não se interessa em reprimir o sofrimento, muito menos reprimir o ser humano por trás de qualquer sexo, cor ou credo.
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